Tarde Idealizada

Esteve sentado naquele banco a tarde toda com seu cachecol azul marinho. Estava esperando uma boa oportunidade para usá-lo e ela finalmente havia chegado. O taxi demorava a chegar, olhava para o relógio em intervalos quase regulares, fato curioso já que nunca fora interessado em lógica e nem em sincronia. Verifiou mais uma vez a presença do guarda-chuva na repartição de mais fácil acesso na mochila que se manteve inseparável  dele durante cinco longos anos. Pensava em como seria possível perder toda sua reputação com aquela garota de 18 anos. Será que não havia aprendido nada com as suas amantes? Como que um simples " Eu te amo" pode arruinar tudo? Simples o caralho, aquela declaração fora ensaiada exaustivamente. Os olhares da desaprovação nunca foram eficazes a ponto de desarmonizar aquele solo de guitarra composto naquela tarde chuvosa de Maio. Fazia mais frio ainda e os vidros dos automóveis já se encontravam embaçados, lembrou -se da famosa cena de Titanic, aquele barco que afundou um amor super idealizado. A idéia platônica do amar lhe era confortante. Olhou mais uma vez para o relógio e percebeu que o ponteiro dos segundos estava parado. Era tudo o que mais desejava nos momentos de intimidade, a idéia de parar o tempo. O tempo sempre se apresentara como inimigo. Zeus matara Chronos e por isso ganhara a imortalidade, mas ser imortal não era uma de suas ambições. Aliás, ambições não eram prioridades na sua vida. Tudo o que queria mesmo era apenas parar o tempo para desfrutar daquele momento íntimo, a dois. Avistou duas luzes paralelas em movimento, era o taxi. A espera acabara, o momento de idealização desaparecera. Entrou no carro, dobrou o cachecol cuidadosamente e o guardou na mochila. Começou a chover e os vidros se embaçaram ainda mais.

Ricardo Kooji Saito

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