Naquele dia em que completava 11 anos de idade, a garota esperava ansiosamente a chegada do pai que lhe prometera um telescópio de presente. Ela queria ser astronauta e repetia isso com orgulho toda vez que lhe perguntavam, e quando não perguntavam, ela dava um jeito de dizer mesmo assim. Muitos foram os carros que passaram à sua janela naquele dia, muitos foram também os suspiros e olhares no relógio. Já se passava das sete horas quando o ruído do motor do carro causou um belo sorriso no rosto da garota. Cumprimentou o pai com entusiasmo e com muitas perguntas. O embrulho estava muito bem feito e o pacote era bem maior que ela, desajeitada ela correu para o quarto para testar o novo presente. Tudo estava preparado para chegada do tão esperado telescópio. As cortinas cor- de- rosa e a janela repleta de adesivos estavam abertas. Com muita habilidade, ela mesma montou o presente, tomando cuidado com cada peça que tocava, segurando cuidadosamente as lentes, ajeitando o tripé de maneira precisa. A Lua não estava muito bem visível naquela noite. " Quarto crescente ! " disse ela para o pai, que observava feliz o brilho nos olhos de sua filha. Segurou com cuidado em uma das extremidades do telescópio, posicionou seu olho esquerdo de maneira confortável e passou a procurar pela Lua. Encontrou a superfície. Observou tudo meticulosamente, em silêncio, e ficou lá por quase uma hora, estática. "Mocinha, já para cama!" , interrompeu o pai. Vestou o pijama, arrumou os cabelos, acomodou a cabeça no travesseiro. Antes de se despedir do pai quis contar sobre as crateras enormes que havia visto, quis indagar o por quê de tantas imperfeições naquele astro que sempre observara com fascinação. Foi aí que sentiu sua menstruação pela primeira vez. Assustada, gritou pela ajuda do pai, que já estava praticamente fechando a porta do quarto. Passados os minutos de lágrimas, perguntas, respostas desajeitdas, a garota voltou a pensar sobre as imperfeições da Lua, mas dessa vez as respsotas surgiram sozinhas. Aquele brilho intenso no olhar dela ia se apagando à medida em que ela adormecia. Naquela noite, os sonhos foram diferentes...
Ricardo Kooji Saito
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